
Por Tânia Cabistany, jornalista diplomada
Em 20 anos de profissão, vivi neste 16 de janeiro, a experiência mais dolorosa como jornalista. Foi a pior pauta da minha vida. Falo da tragédia que se abateu no Grêmio Esportivo Brasil. Muitas pessoas nos consideram "urubus" por estarmos presentes em momentos dolorosos. Mas esquecem - e a gente entende isso - que somos os olhos da comunidade e que precisamos passar para ela os acontecimentos, sejam bons ou ruins. Nesse caso específico, muito trágicos. Somos profissionais, mas seres humanos, que também sofrem com o sofrimento dos outros, que muitas vezes é o nosso também. Isso aconteceu na fatídica sexta-feira do acidente com o ônibus do Brasil.
Como xavante que sou, foi muito difícil para mim acompanhar tudo sem me envolver. Por mais que tenhamos de nos manter firmes na postura profissional, por dentro é completamente diferente. Travei, durante todo o tempo, um verdadeiro duelo entre a torcedora do Brasil e a repórter do Diário Popular. Em mais de um momento a torcedora tomou conta da repórter e eu não consegui
conter as lágrimas. Por mais de uma vez olhei para o fotógrafo que me acompanhava, o Carlinhos, um xavante nato, e nós dois estávamos chorando. Senti que ele, como eu, teve vontade de me dar um abraço em alguns momentos, sobretudo no mais comovente para todos nós, que foi a chegada do corpo de Milar. Foi ali que nós despencamos. Outros momentos
duros foram os que presenciamos o descontrole emocional de Alex Martins. Dava vontade de parar tudo e tentar consolar aquele menino que sofria tanto com a dor da perda. Como imaginar que veríamos esse sofrimento nos rostos dos "nossos" ídolos e que perderíamos o maior de todos eles? Pensava no meu filho, de 12 anos, que também sofreu um acidente de ônibus no último dia 24 de dezembro, e na dor daquelas mães que choravam no gramado do Bento Freitas. A mão de Deus fez com que o ônibus que meu Matheus estava, atingido frontalmente por uma carreta, que saiu alguns metros andando apenas com as rodas de um lado, tenha sido impedido de despencar no penhasco por uma árvore. Apenas uma árvore segurou o ônibus. Meu pequeno não sofreu nenhum arranhão e manteve-se calmo para ajudar os feridos. Chegou na casa da avó, em Caxias do Sul, com a roupa suja de sangue. Dos outros. Fiquei orgulhosa de sua atitude e agradecida a Deus pelo resto da minha vida por meu filho ter escapado ileso. Mas as mães de Milar, Régis e Giovani não tiveram a mesma sorte que eu. Durante o dia de trabalho no Bento Freitas, pensava nisso o tempo todo. Não tinha como não ligar as coisas. Meu filho foi quem me levou para dentro do campo do Brasil. Aficionado por futebol, desde pequeno se identificou com o xavante e se tornou um. Não consegue conceber a idéia de não assistir a algum jogo, mesmo que seja amistoso. Como moramos muito próximo do estádio, também acompanha os treinos. Na parede de seu quarto ostenta uma enorme bandeira vermelha e preta. Depois que cedi aos apelos para que o levasse ao primeiro jogo do Brasil, quando era um tiquinho de gente, nunca mais deixei de ir. Também virei xavante. Não tem como não aderir à paixão rubro-negra. Eu estou entre os milhares de torcedores que lotam as arquibancadas da Baixada. Por isso foi tão difícil para mim, como para o Carlinhos, ficar impassível diante de fatos tão trágicos. Foi duro ouvir o pranto do meu filho, que ainda não retornou, do outro lado da linha. Ele não estava aqui para se despedir de seu ídolo maior, o Milar, de Régis, outro identificado com a torcida, e nem para poder falar com Alex Martins, que pacientemente conversa com os xavantinhos até pelo Orkut, entre eles meu Matheus. Pediu-me para guardar todos os jornais, embora tenha passado o dia inteiro acompanhando tudo pela Internet e pela TV. Guardei, certamente. Mas para mim, tudo ficou registrado na mente e no coração. Jamais vou esquecer a pauta mais difícil da minha vida. Muito menos as alegrias que nos deram aqueles que partiram de uma forma tão brutal. Minha solidariedade e carinho às mães dos jogadores e do Giovani, ao presidente Helder Lopes, aos dirigentes, aos jogadores e aos demais familiares, amigos das vítimas e à sempre e mais fiel torcida do interior do Estado.
conter as lágrimas. Por mais de uma vez olhei para o fotógrafo que me acompanhava, o Carlinhos, um xavante nato, e nós dois estávamos chorando. Senti que ele, como eu, teve vontade de me dar um abraço em alguns momentos, sobretudo no mais comovente para todos nós, que foi a chegada do corpo de Milar. Foi ali que nós despencamos. Outros momentos
duros foram os que presenciamos o descontrole emocional de Alex Martins. Dava vontade de parar tudo e tentar consolar aquele menino que sofria tanto com a dor da perda. Como imaginar que veríamos esse sofrimento nos rostos dos "nossos" ídolos e que perderíamos o maior de todos eles? Pensava no meu filho, de 12 anos, que também sofreu um acidente de ônibus no último dia 24 de dezembro, e na dor daquelas mães que choravam no gramado do Bento Freitas. A mão de Deus fez com que o ônibus que meu Matheus estava, atingido frontalmente por uma carreta, que saiu alguns metros andando apenas com as rodas de um lado, tenha sido impedido de despencar no penhasco por uma árvore. Apenas uma árvore segurou o ônibus. Meu pequeno não sofreu nenhum arranhão e manteve-se calmo para ajudar os feridos. Chegou na casa da avó, em Caxias do Sul, com a roupa suja de sangue. Dos outros. Fiquei orgulhosa de sua atitude e agradecida a Deus pelo resto da minha vida por meu filho ter escapado ileso. Mas as mães de Milar, Régis e Giovani não tiveram a mesma sorte que eu. Durante o dia de trabalho no Bento Freitas, pensava nisso o tempo todo. Não tinha como não ligar as coisas. Meu filho foi quem me levou para dentro do campo do Brasil. Aficionado por futebol, desde pequeno se identificou com o xavante e se tornou um. Não consegue conceber a idéia de não assistir a algum jogo, mesmo que seja amistoso. Como moramos muito próximo do estádio, também acompanha os treinos. Na parede de seu quarto ostenta uma enorme bandeira vermelha e preta. Depois que cedi aos apelos para que o levasse ao primeiro jogo do Brasil, quando era um tiquinho de gente, nunca mais deixei de ir. Também virei xavante. Não tem como não aderir à paixão rubro-negra. Eu estou entre os milhares de torcedores que lotam as arquibancadas da Baixada. Por isso foi tão difícil para mim, como para o Carlinhos, ficar impassível diante de fatos tão trágicos. Foi duro ouvir o pranto do meu filho, que ainda não retornou, do outro lado da linha. Ele não estava aqui para se despedir de seu ídolo maior, o Milar, de Régis, outro identificado com a torcida, e nem para poder falar com Alex Martins, que pacientemente conversa com os xavantinhos até pelo Orkut, entre eles meu Matheus. Pediu-me para guardar todos os jornais, embora tenha passado o dia inteiro acompanhando tudo pela Internet e pela TV. Guardei, certamente. Mas para mim, tudo ficou registrado na mente e no coração. Jamais vou esquecer a pauta mais difícil da minha vida. Muito menos as alegrias que nos deram aqueles que partiram de uma forma tão brutal. Minha solidariedade e carinho às mães dos jogadores e do Giovani, ao presidente Helder Lopes, aos dirigentes, aos jogadores e aos demais familiares, amigos das vítimas e à sempre e mais fiel torcida do interior do Estado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário