Por Márcia Miller G. de Pinho
Ele é “O Cara”.
A quem restasse alguma desconfiança – seja quanto ao talento ou caráter – de Francisco Buarque de Holanda, o artista brasileiro, coube a convicção de estar diante de um poeta pleno, músico maduro, homem íntegro e coerente: “O Cara”.
Quem, como eu, teve o privilégio de assistir ao Chico em sua turnê por Porto Alegre, na última semana, pôde constatar (se, ao contrário de mim, ainda não o soubesse) que o mito nada deixa a desejar ao artista in loco. Até porque, se houve algum esforço explícito do homem no palco, foi justamente o de impor humanidade ao mito. Nenhuma intenção performática, nenhum jogo de corpo (o que deve reservar ao seu outro “talento” – o futebol), apenas o homem simples que reverencia o público com a excelência de sua arte e com a reação tímida diante da ovação, como que confessando: “Não sou tudo isso. Apenas faço o que gosto, sou um homem comum...”.
Contrariando sua própria crença, Chico Buarque é dos raros. Artista de sensibilidade ímpar, não dispensa a técnica musical, com acordes precisos e melodias elaboradas, nem tampouco o rigor linguístico, em composições que honram os grandes mestres da literatura nacional. Admirador confesso de Guimaraes Rosa e Rubem Braga, maneja a língua portuguesa com o rigor de quem, inequivocamente, figura entre seus principais expoentes.
Porém, esses atributos já são conhecidos e, arriscaria dizer, universalmente consagrados (quem ousaria contestá-los?). O que merece destaque – embora não surpreenda – após a experiência de vê-lo no palco, em atuação, é a inabalável coerência. Afinal, o que esperar de um artista que pautou sua vida pela articulação entre sentimentos, ideias e ideais? Certamente não seria cabível ver em cena um sedutor explícito, utilizando-se da sua (também) incontestável mística e de seus arrebatadores olhos verdes para cativar o público, especialmente o feminino. Impensável. Dispensável...
No entanto, aviso ao artista que seu intento de sobrepor a arte ao artista não foi bem sucedido. O homem se impôs. Não em trejeitos ensaiados para encantar a plateia e arrancar suspiros, mas no silêncio profundo e de absoluta reverência que se instaurou em momentos memoráveis, como o da interpretação de Todo Sentimento:
[...] onde não diremos nada,
nada aconteceu.
Apenas seguirei como encantado,
ao lado teu.
Definitivamente, ele é “O Cara”.