terça-feira, 9 de agosto de 2011

Professor questiona acesso ao “sistema” de financiamento público de algumas pesquisas

Pesquisador Althen Teixeira
Artigo: Althen Teixeira Filho*
No sentido de contrapor o ideário de um colega da UFPel, enviei artigo para a Folha de São Paulo, mas o jornal não o publicou por "acúmulo de artigos recebidos". Então, contesto neste espaço a visão "meritocrática" exposta pelo docente.

Num debate sobre a Universidade não cabem desqualificações e anátemas, por ser local onde o controverso desenvolvido, educada e intelectualmente, é desejado e positivo. Coexistimos num “tripé ensino/pesquisa/extensão” e sobrepor uma atividade às demais – e a sua própria ação e necessidade – significa desestabilizar o conjunto.



Assim como o colega sou favorável a tal “meritocracia”, mas antes precisamos saber sobre o que debatemos.

Entendo que tem um grande mérito todo o docente que só ministra aulas e sei de muitos que, mesmo com qualificação, não dispõem de tempo e condições laborais para atuarem na pesquisa. Não obstante, suas intensas jornadas didáticas formam os jovens que já constroem nosso futuro, pois a sociedade exige que a Universidade faça exatamente isto: prepare seus filhos com qualidade para enfrentar todo e qualquer desafio. E isto se faz – básica e fundamentalmente – na relação docente/aluno da graduação.

A Extensão universitária atua mais próxima à sociedade, estudando-a, aprendendo e buscando atender algumas de suas carências. “Ancora” o dia-a-dia da Universidade ao cidadão.

Também é impossível prescindir da pesquisa, valorosa por mostrar novos resultados e caminhos no campo científico. Ela é formidável, empolgante e ficamos horas há mais (não raro noites inteiras) nos laboratórios por puro prazer! Contudo, a maioria dos docentes brasileiros não têm - e jamais terão - acesso ao “sistema” de financiamento, que é formado por grupos cada vez mais fechados e que usufruem de privilégios financeiros. E aqui repousa uma questão nodal: por que um “professor pesquisador” faz jus a acréscimos salariais, em detrimento de um colega que se esfalfa em sala de aula? E o extensionista merece menos? Um não é superior ao outro, todos têm o mesmo contrato e a resposta a este questionamento se dá no campo político.

Para fragilizar as manifestações contrárias às péssimas condições da Universidade pública – que muitas vezes resultaram em greves – os governos (FHC e Lulla) criaram "centros de excelência" e uma "elite" de pesquisadores com remuneração diferenciada. Assim encastelados, alguns destes acham que são, de fato, melhores do que os colegas ao lado, atuam com soberba e repetem sempre “o pós-graduação não pode parar”. Ironicamente, as melhorias advindas de ações sindicais, greves e mobilizações alcançam a todos, todos a aceitam e agora não existem “pedestais”.

Não discordo da avaliação e exigências (muito pelo contrário), mas da forma como o “sistema” se locupleta. Embora também atue na pesquisa, decidi abandonar o preenchimento do currículo Lattes, ainda que depois disto já tenha participado de bancas, proferido palestras, traduzido dois livros de anatomia (alemão para o português) publicado dois livros e alguns trabalhos. Pergunto: por que um professor que só tem tempo para dar aulas também não tem o justo retorno por esta atividade? O que precisamos são boas condições de trabalho, salários dignos e sermos avaliados nesta igualdade. Ninguém é melhor do que o outro e esta é, sim, uma excrescência; distinções salariais ilegais e ilegítimas. Não podemos esquecer da equiparação salarial dos que tiveram o mérito de construir esta Universidade (aposentados).

Quanto ao sindicato Andes, as assertivas foram caluniosas, deseducadas e preconceituosas. É interessante notar como sobra tempo ao colega para cotejar o currículo de dezenas, errar nas conclusões e asseverar que a "qualidade" se dá via orientações. Também importante ressaltar a dicotomia; criticar os que recebem "apoio financeiro" para participar de atividades do sindicato, mas esquecer os que recebem "apoio financeiro" para fazer o que já são pagos para fazer! Tenho quase certeza que na equação dos  valores, os "pesquisadores" recebem mais que os sindicalistas.

Várias associações docentes publicam seus gastos detalhada e nominalmente ao final de cada gestão e, se alguém desejar, existem as assembléias para críticas  e até desabafos emocionais. Omitir-se desta responsabilidade sindical para recriminar no público traduz-se em criticável oportunismo.

Na mesma proporção, e como o repasse para o "pesquisador" é via impostos, seria interessante sabermos do CNPq quanto pagamos (sociedade) para que este grupo faça o que já recebe para fazer. Aliás, este acréscimo equivale ao que criticamos enfaticamente nas "bitributações", e tem inegável verossimilhança com as condenáveis "verbas de gabinete" de deputados. Estas "bolsas" não poderiam ser pagas e a soma deveria ser imediatamente repassada para alavancar ainda mais a pesquisa, afinal, todos concordamos que ela é uma das pilastras que sustenta as Universidades.



*Althen Teixeira Filho, 57

Especialista, Mestre, Doutor,

Ex-bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) / Alemanha

Professor Titular / UFPel / Instituto de Biologia

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Abraço
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Editor

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