quarta-feira, 5 de maio de 2010

Futebol, "coisificação" e o senso comum

 Estamos vivendo um momento insano em que se comemora a venda de craques para o exterior. Antigamente os clubes e as torcidas comemoravam somente títulos conquistados

Uma lorota repetida várias vezes transforma-se em verdade absoluta.  "A formação de craques e a venda para o exterior transformou-se na principal fonte de renda para os times". Este pensamento tomou conta do futebol brasileiro graças a Lei Pelé. O resultado disso é que até jornalistas idôneos defendem a idéia de exportar nossos craques para o exterior. Torcidas chegam a vibrar quando um grande craque é "vendido" para o exterior. É a inversão total da finalidade de um clube de futebol. Estamos vivendo um momento insano em que se comemora a venda de craques. Antigamente os clubes comemoravam somente títulos conquistados. Hoje, ouve-se a comemoração de torcedores: "meu time vendeu mais um jogador".  Me digam para que? O SC Internacional é exemplo disso. Vendeu Nilmar para o exterior no ano passado ( ganhou um balaio de dinheiro), não foi campeão brasileiro e quase ficou de fora da Libertadores deste ano. Quase nenhum torcedor chiou. Estamos vivendo o que o filósofo Mário Sérgio Cortella chama de "coisificação". Estamos falando de gente. Não estamos falando em sapato, gado, fruta. A Lei Pelé só beneficia(ou) meia dúzia de empresários que fazem tráfego legalizado de mão de obra para o exterior. Os brasileiros estão privados de verem em nossos campos: Kaká, Ronaldinho, e tantos outros.   Muito certa a idéia de apoiar as categorias de base, tiram os moleques da rua, possibilitam um prumo em suas vidas. Isso sim deve ser o foco.
A Lei Pelé  beneficia os oportunistas, políticos carreiristas e empresários. Faltou na lei  a obrigatoriedade dos clubes apresentarem seus balanços financeiros reais. O nome disso é transparência.
Por outro lado, fica uma reflexão: se a Lei Pelé existisse há alguns anos, as torcidas ( razão da existência de um time de futebol) nunca teriam visto Falcão, Zico e cia. jogar de pertinho, vestindo a camiseta de seus clubes. Alguém perguntaria o que fazer diante do assédio a nossos jogadores? Regras claras em defesa de "nosso patrimônio". Reserva de mercado meus senhores. É um absurdo permitirem que pré-adolescentes saiam de suas cidades, abandonem suas famílias, antes de completarem 20 anos. Há casos em que os clubes europeus oferecem emprego aos pais, em troca de um contrato. Algo que não é permitido em qualquer país civilizado. Aqui chamam de "modernização". Para mim, particularmente, é barbárie. Mas o espetáculo não pode parar e sempre haverá um Adriano para colaborar na venda de revistas, jornais e canais de TV por assinatura.

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