domingo, 14 de março de 2010

Há tanto tempo que te amo


Por Márcia Miller Gomes de Pinho
Foi por acaso. Seduzida inicialmente pela profundidade do olhar da atriz (Kristin Scott Thomas), pude me deparar com a profundidade de um dos filmes mais instigantes que já assisti. Há tanto tempo que te amo(2008), é uma produção francesa que aborda, como prenuncia o título, o amor. Eis que, no entanto, nos deparamos com um tratamento inusitado para o tal sentimento. Onde poderíamos esperar uma história clássica de amor romântico entre uma mulher e um homem, encontramos uma narrativa sensível e com nuances dramáticas da história de uma mulher e seus múltiplos amores que circulam em torno do principal da trama: seu amor de mãe.
Em tempos de reality shows, o filme se impõe (com maestria), como contraponto à cultura maniqueísta tipicamente contemporânea. Ao invés de uma heroína inverossímil, temos uma mulher real, complexa, híbrida, intrigante, e por isso mesmo, interessante. Ao invés de um ato de amor, temos um crime – ainda que se possa refletir ao longo da trama quanto à similaridade entre ambos. Ao invés de um amor, temos os amores - plurais, dramáticos, multifacetados em sua gênese e seu desenvolvimento, mutáveis e, sobretudo, reais.
Primoroso no tratamento da(s) linguagem (ns), o filme se vale de intertextualidade e de metáforas para tratar temas filosoficamente complexos, longe, no entanto de ser uma narrativa inacessível. Ao contrário, capta-nos pela simplicidade, pela sutileza das interpretações, pelos diálogos por vezes até didáticos, mas principalmente pelo não-dito mas intuído por cada mulher ou homem que, inevitavelmente, se coloca na pele da protagonista e simplesmente sente.
É bom avisar a quem quiser assistir que não encontrará uma história convencional. Não se trata de uma história para julgar, mas para contemplar. Ainda que permeie discussões éticas, mais que emitir opiniões e veredictos, o filme nos encaminha à introspecção. Não trata da verdade, mas das verdades circunstancialmente inscritas na história de vida de cada um. É, portanto, um filme desestabilizador, para quem aceitar o exercício de ver a vida além do prisma do bem ou do mal.
Vale a pena. Se a alma não for pequena...

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