Sigo sem tempo de postar. Achei um texto de Leandro Scabin. Como procuro não publicar aqui textos longos, recortei "um pedaço" interessante. Quem quiser ler o artigo na íntegra, pode acessar aqui: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3683/9/
Um assassinato político
Escrito por Leandro Scabin
28-Ago-2009
Beira a má-fé afirmar que o "MST ganhou seu mártir" como afirmaram os meios de "comunicação social", diante das ações deliberadas e conscientes de um governo que criou e treinou um aparelho repressivo contra manifestações populares e realizou tantas outras ações que contribuíram para dar causa ao homicídio do cidadão Elton Brum da Silva.
No dia 21 de agosto de 2009, por volta das oito horas, um trabalhador rural sem terra foi assassinado com um tiro pelas costas disparado pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Sobre o episódio, os jornais Zero Hora e Correio do Povo falaram em "morte" do sem terra, em "erro" da Brigada e operação "desastrada", o que demonstra que escreveram matérias publicitárias.
A força de nomear as coisas de outra forma pode modificar a maneira de vê-las. A palavra "morte" utilizada no lugar de "homicídio" penetrou pelos sentidos de milhões de gaúchos que não tiveram tempo de refletir o que ela significa, mas aceitaram o que ela representa: morte é um evento "natural", oposto a homicídio, que é a morte causada por alguma coisa como a espingarda calibre 12 usada em São Gabriel. Eis como um homicídio passou para a história como morte, pois sabemos que não há nada mais antigo que o jornal de ontem. Os mesmos jornais passaram o homicídio de um PM como "degola" feita por um sem terra com uma foice para a história, o que não ocorreu segundo os autos do processo, mostrando o grau de parcialidade da imprensa nestes casos.
Homicídio pode ser doloso (assassinato) ou culposo, por imperícia, imprudência ou negligência. Novamente o nome "erro" modifica a forma de ver as coisas (o assassinato). O homicídio do sem terra foi um assassinato político praticado, não pelo PM que puxou o gatilho, mas pelo governo estadual que criou e treinou um aparelho político de repressão social, e implantou várias medidas que levaram ao ato extremo. O que distingue culpa (erro) e dolo (assassinato) é a vontade de agir e de atingir um resultado, ou ainda, o fato de se assumir o risco de ocorrer determinado resultado (dolo eventual).
No dia 5 de janeiro de 2007, na primeira semana de seu mandato, Yeda Rorato Crusius extinguiu o Gabinete da Reforma Agrária da Secretaria Estadual de Agricultura, dando as costas para duas mil famílias sem terra acampadas no estado. Sem dúvida foi um erro que as futuras gerações nos cobrarão, mas ela sabia muito bem o que estava fazendo.
Leandro Scabin é advogado. Contato: leandroscalabrin@via-rs.net
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